Antidepressivos funcionam 'mesmo', mostra estudo que solucionou um dos maiores debates da medicina

Cientistas britânicos afirmam que chegaram a uma conclusão sobre um tema que é alvo de um dos maiores debates da medicina: a eficácia dos antidepressivos.

Existe uma crença entre uma parte da população que não é leiga, mas também não é tão... digamos, inteirada sobre o tema saúde saúde mental, de que a depressão é "frescura" e que o efeito do antidepressivo é o mesmo de um placebo (entenda o efeito placebo). Essas pessoas têm respostas prontas para a depressão, como: 'arruma algo pra fazer que a depressão passa', ou 'tenha um filho que seus problemas acabam', 'adota um cachorro que a depressão some'.




Tais pessoas não costumam acreditar na ação dos antidepressivos, mas não são só elas, vários profissionais de saúde, incluindo alguns psicólogos, médicos em geral e, pasmem... médicos psiquiatras [pausa para nos recuperarmos do susto].

MAS ISSO MUDARÁ A PARTIR DESSE ESTUDO... que comprovou a eficácia dos antidepressivos. Vamos entendê-lo?

Antidepressivos funcionam mesmo mostra estudo

Logo na introdução da BBC Brasil (uma das fontes das quais me baseei para fazer essa matéria) já é possível notar a importância desse estudo:

"Um estudo de peso (...) afirma que esse tipo de droga é, sim, eficiente no combate à depressão". citação da BBC Brasil

A pesquisa, realizada pela Universidade de Oxford, no Reino Unido e divulgado na publicação médica The Lancet, considerou 522 testes clínicos resultantes de um tratamento de depressão em adultos em curto prazo de tempo. O estudo analisou mais de 116 mil pacientes, (≥18 anos e de ambos os sexos).




De acordo com os cientistas, todos os 21 antidepressivos usados se mostraram significativamente mais eficazes na redução de sintomas da doença do que as pílulas de placebo -- também usadas nos testes.

Entre a comunidade médica e científica, há um debate sobre a eficácia de medicamentos usados para combater a depressão, devido a alguns estudos anteriores indicarem que os antidepressivos teriam o mesmo resultado que os obtidos com o placebo.

O Royal College of Psychiatrists - a principal instituição de psiquiatras no Reino Unido - disse que o estudo "finalmente coloca um ponto final na controvérsia sobre antidepressivos".

Segundo os pesquisadores, que falaram à BBC, a pesquisa é uma evidência clara que os antidepressivos funcionam na melhora do humor e ajudam pessoas com depressão. Dessa forma, o estudo dá uma resposta final à longa controvérsia sobre a ação desses medicamentos ser eficaz ou não para a depressão. Eles ainda descobriram que os antidepressivos mais prescritos funcionam para a depressão moderada e também para a severa.

"É uma notícia muito boa para pacientes e psiquiatras", avalia Andrea Cipriani, da Universidade de Oxford, que liderou o estudo.

Sobre as razões para a realização do estudo, os pesquisadores escreveram ao The Lancet:


"O transtorno depressivo maior é um dos distúrbios psiquiátricos mais comuns, onerosos e dispendiosos em todo o mundo em adultos. Existem tratamentos farmacológicos e não farmacológicos disponíveis; no entanto, devido a recursos inadequados, os antidepressivos são usados ​​com mais frequência do que as intervenções psicológicas.

A prescrição desses agentes deve ser informada pela melhor evidência disponível. Portanto, buscamos atualizar e expandir nosso trabalho anterior para comparar e classificar os antidepressivos para o tratamento agudo de adultos com transtorno depressivo maior unipolar."

Todos os antidepressivos funcionam da mesma forma?


Uma outra questão levantada foi sobre a qualidade dos antidepressivos, que pode variar bastante. Enquanto alguns fármacos mostraram ser um terço mais eficazes que placebos, outros são até duas vezes mais bem-sucedidos.

Quais os antidepressivos foram mais e menos eficazes?


Nas listas abaixo, estão os antidepressivos estudados, lembrando que estes são os nomes dos princípios ativos (fármacos, substâncias) e não os nomes comerciais. Dessa forma, para saber se o remédio para depressão que você toma foi estudado, veja o nome escrito em letras pequenas, logo abaixo do nome comercial.

Além disso, existem vários nomes comerciais de fabricantes diferentes. Okay? E aproveito este tópico para esclarecer que mesmo se o seu medicamento está entre os menos eficazes não significa que ele não é eficiente para você. E isso deve ficar bem claro!




Antidepressivos mais eficazes no estudo


- Agomelatina

- Amitriptilina

- Escitalopram

- Mirtazapina

- Paroxetina

Antidepressivos menos eficazes no estudo


- Fluoxetina (o mais receitado) (o Prozac)

- Fluvoxamina

- Reboxetina

- Trazodona

Antidepressivos piores do que o placebo


- Clomipramina (apenas ela foi pior do que placebo)

Resultados do estudo com antidepressivos


Os autores da pesquisa dizem que as descobertas ajudarão os médicos a escolher a melhor prescrição para seus pacientes. No entanto, as pessoas não devem usar a pesquisa como base para simplesmente trocar de imediato sua medicação.

Por quê? Porque o estudo detectou o efeito das drogas na população analisada como um todo, mas não entrou em detalhes sobre como as drogas antidepressivas afeta as pessoas de diferentes gêneros, idades e outras características.

Comentário Saúde com Ciência sobre o estudo com os antidepressivos

(Renata Fraia)

A depressão é uma doença norteada de preconceitos. Há quem sinta vergonha de dizer que tem a doença porque acredita que as outras pessoas o acharão "fraco" "preguiçoso", etc. Não há um paciente com a DOENÇA depressão que nunca tenha ouvido pelo menos alguma das frases (normalmente ouve-se todas):

  • Você precisa reagir;
  • Você tem de tudo, não deveria ter depressão;
  • Fulano tem uma doença terrível e não tem depressão;
  • Levanta dessa cama, vai tomar um banho e vamos passear;
  • Arruma alguma coisa pra fazer que a depressão passa;
  • Remédio não adianta tem [só] que fazer terapia;
  • Remédios controlados fazem mal, pare de tomar;
  • Psiquiatra é médico de louco (ISSO É UMA DE UMA IGNORÂNCIA INACEITÁVEL NO SÉCULO 21).




Se você faz parte do grupo de pessoas que escuta tais frases, tenha certeza de que isso tende a mudar - sobretudo após esse estudo que prova que os antidepressivos funcionam mesmo -, mas se faz parte do grupo que "solta" tais expressões, mude também, EVOLUA, por favor. A pessoa que está doente sofre e quanto mais grave o quadro, maior também é seu sofrimento. Lembre-se: incentivar o tratamento é muito mais importante do que julgar ou dizer essas frases batidas e vazias. Por que em vez delas, você não diz:

  • Quer que eu o/a acompanhe ao médico?;
  • Vou acompanhá-lo/a ao médico (em casos graves a pergunta acima não funciona);
  • Vamos buscar uma ajuda psicológica?
  • Sabia que alguns alimentos*, como os ricos em triptofano, podem AJUDAR a aliviar a depressão? Vou comprar alguns deles pra vc (em casos graves, as pessoas não conseguem comprar tais alimentos sozinhas).

* NUNCA substitua seu medicamento por um alimento, eles são apenas complementares... SEMPRE!

Para aqueles que dizem as frases: 'você tem de tudo, não deveria ter depressão' e 'fulano tem uma doença terrível e não tem depressão'; saiba que nem todas as pessoas têm tendência à essa doença. Elas podem passar por tragédias e, portanto, vivenciarem um período de luto sem, no entanto, caírem em depressão após esse tempo. Já quem tem tendência...

Em tempo: por tendência a ter depressão podemos entender como sendo a maior possibilidade de desenvolver a patologia devido a casos de depressão em familiares ou, ainda, por uma questão de desequilíbrio bioquímico cerebral de neurotransmissores (substâncias como a serotonina) que regulam o humor ou uma união das duas hipóteses.

Imagine como uma pessoa com esses "gatilhos" enfrentam um grave problema? Com muita dificuldade e com grande chance de ter uma crise depressiva. O melhor tratamento para essa pessoa é unir psicoterapia e medicação.

Já sobre aquela pessoa que tem uma doença gravíssima e enfrenta inúmeros problemas e alguns apontam como não tendo depressão... Você já se perguntou qual a dose do medicamento que ela toma e quantas sessões de terapia ela faz semanalmente? Pois é, pense nisso!

** Ainda não existem exames de sangue que comprovem os desequilíbrios bioquímicos, mas os estudos de imagens de ressonância magnética estão avançando a passos largos, como mostra este artigo: Exames de imagem para depressão: Projeto Conexão - Renata Fraia - farmacêutica CRF 23664.

#depressão #saúde mental

Fontes: BBC Brasil / The Lancet

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